Blog do Marcelão

Blog para debate sobre excelência na gestão.

ExpoManagement 2010: Reconstruindo Nossa Visão de Mundo

Posted by marcelao em novembro 13, 2010


Pessoal,

entre os dias 08 e 10 de novembro, eu estive participando do maior evento de gestão da América Latina, quiça do mundo, que é a ExpoManagement organizada pelo grupo HSM. O Evento é muito bem organizado e por lá passaram mais de 26 mil pessoas assistindo as palestras do auditório principal, visitando os stands dos patrocinadores ou assistindo as rodadas inspiracionais que ocorriam em paralelo as palestras do auditório principal.

Se eu pudesse resumir todas as palestras, que assisti no auditório principal, eu diria que há um consenso de todos que palestraram que é preciso reconstruir uma nova visão do mundo e também na forma como convivemos em comunidade. É preciso que todos nós – pessoas, empresas e governos – entendam que é importante perceber que somos todos interdependentes um dos outros. É importante percebermos isso se quisermos realmente exercer sustentabilidade em nossas vidas. Está mais do que claro que é preciso rever vários modelos: o econômico, o social, o ambiental e os de gestão nas empresas.

John Elkington e seu conceito “Tripple Botton Line” abriu as palestras do auditório principal já estabelecendo qual seria o tom e o centro do debate de todo o evento. O conceito do “Tripple Botton Line” é relativamente simples que consiste no equilibrio entre os 3 “P”: Pessoas, Planeta e Profit(Lucro). Infelizmente, esse equilíbrio ainda não é adotado intensamente pelas empresas, uma vez que existe grande descompasso entre a urgência dos desafios e o empenho das empresas em enfrentá-los. Problema esse que não se resume somente as empresas, mas que tem relação fundamental com os investidores da bolsa de valores segundo Gavin Neath, vice-presidente Senior da Unilever que afirmou que “Os grandes investidores têm pouquíssimo interesse e nos dão pouquíssimo crédito pelo que fazemos – e não há sinais de que isso possa mudar em breve”. Afirmação respaldada pelas 3 mil maiores empresas de capital aberto do mundo que acumularam passivo ecossistêmico de US$2,2 trilhões em 2008, equivalente a mais de 30% de seus lucros.

Segundo John Elkington, em 2050 serão 9 bilhões de pessoas habitando nosso planeta e que será preciso um modelo econômico e empresas que sejam capazes de criar valor econômico, valor social e valor ambiental duradouros buscando equilibrio sustentável e avaliando o impacto ético dos investimentos realizados nos negócios das empresas. Essa necessidade de revisão do modelo econômico é explicável pelo simples dado de que no dia 21 de agosto desse ano ocorreu o dia em que nosso planeta ultrapassou seus limites, pois esse foi o dia em que a população mundial utilizou 150% de todos os recursos que o planeta é capaz de gerar em um ano.

Já Philip Kotler abordou seu conceito de Marketing 3.0 que envolve o alinhamento entre a marca da empresa(Branding) com a estratégia de sustentabilidade, não só com o público externo(clientes, sociedade e governos), mas também com foco interno no relacionamento com funcionários. Alinhamento esse, perdoem o trocadilho, alinhado com a proposta apresentada por David Ulrich sobre a marca da liderança como sendo construída de fora para dentro das empresas, ou seja, levando em consideração os interesses externos dos stakeholders das empresas. Por essa razão que as empresas e seus departamentos de Marketing devem se preocupar cada vez mais em construir marcas do que em só preservar marcas. O Marketing 3.0 envolve levar em consideração preocupações e desejos de cidadãos globais.

Segundo Kotler, a visão de que os investidores tem importância maior para as empresas do que atender a sociedade continua sendo a lógica que guia os profissionais de marketing das empresas levando as empresas a visarem mais os lucros do que reconhecerem o poder crescente dos clientes, a não reconhecerem o poder crescente das redes sociais e dos demais stakeholders. Os profissionais de marketing continuam com a visão arcaica de que os clientes agem racionalmente quando compram e que ainda obtém dos vendedores a maior parte das informações sobre os produtos. O Marketing 1.0 centrou suas atenções nos produtos, enquanto que o Marketing 2.0 centrou nas necessidades dos clientes. Agora o Marketing 3.0 visa centrar nos valores pregados pela sociedade olhando o ser-humano de forma plena, com coração, mente e espiríto. Proporcionar “significado” é a futura proposição de valor do marketing.

Compartilhar “significado” também é o desafio e a força que exige mudança nos modelos de gestão das empresas, pois vivemos a era da criatividade segundo Gary Hamel, estudioso de estratégia e líder do ManagementLab – laboratório da London Business School focado em estudar práticas de inovação na gestão. Segundo Hamel, estamos entrando em uma nova era econômica, que ele denomina “Era da criatividade”, e faltam aos modelos de gestão das empresas as qualidades para navegar nessa nova era. Ele avisa: a gestão precisará acompanhar essa evolução, queira ou não, e se aproximar do que é ser-humano.

Qualquer inovação na maneira de conectar os seres-humanos é uma conquista. O problema é que os modelos de gestão atuais não geram conexões entre as pessoas, os processos e os sistemas existentes dentro das empresas. Os dados coletados por Hamel em seu laboratório permitem deduzir que inovações no modelo de gestão – os avanços fundamentais em nossa maneira de motivar, organizar, planejar, delegar e avaliar – produzem vantagens mais duradouras, mais sustentáveis.

Tudo isso é uma questão de continuar vencendo no futuro, buscando novas maneiras de energizar as pessoas, para que não apliquem no trabalho apenas as suas capacidades técnicas, mas também sua paixão e iniciativas. Como? Garantindo sentido as coisas, garantindo significado e sentimento de conexão emocional a algo maior do que simplesmente interesses individuais, permitindo maior autonomia e alcançando o desejo de pertencer a comunidades onde exista confiança. Para isso, as empresas devem estar comprometidas com um propósito maior e valioso, ou seja, sai o lucro e entra a causa, a missão. As empresas, mesmo sendo pessoas jurídicas, devem fazer perguntas de pessoas físicas se quiserem criar essas conexões.

Para Hamel, Gestão é a tecnologia que trata de criar as condições e as estruturas necessárias para que as pessoas se realizem nas empresas. Gestão é a tecnologia da potencialização do ser-humano. É uma tecnologia social.

O problema é que grande parte do avanço e desenvolvimento dos modelos de gestão ocorreu entre 1890 e 1980, ou seja, antes do advento da Internet e, principalmente, do crescimento do poder das redes sociais. O modelo de gestão 1.0 foi criado para aumentar a produtividade pela replicabilidade de comportamento, onde as pessoas deviam agir como robôs. Esse modelo é incompatível com a “Era da Criatividade” onde a velocidade da mudança ocorre de forma exponencial e isso é algo que não tem precedência na história da humanidade. Por essa razão é que não podemos mais utilizar os princípios do feudalismo e da fisica newtoniana nos modelos de gestão. É preciso buscar facilitar a adaptabilidade nas empresas inovando na gestão.

O problema dos modelos de gestão 1.0 é que eles buscam obter das pessoas a obediência, diligência e inteligência, mas não buscam paixão, engajamento e criatividade.  O resultado disso é que apenas 14% das pessoas estão realmente engajadas nas empresas e só 38% das pessoas acham que seus gerentes são transparentes e abertos no diálogo.

Para romper com essa realidade, é preciso entender que são os funcionários que geram riquezas para empresas. Você só é inovador se inspirar pessoas diariamente no trabalho. Trate bem seus funcionários e eles irão tratar bem seus clientes. Para isso é preciso ser ousado, é preciso ser diferenciado em relação a sua concorrência e não tentar copiá-los. Entenda que é preciso desafiar dogmas e paradigmas diariamente nas empresas, pois eles são como papel de parede que estão sempre lá e chega um tempo que você já não os percebe mais, mas eles continuam lá.

Procure aprender a partir do futuro. Temos que aprender com a revolução social da Internet, onde liberdade e disciplina não são conceitos excludentes. É preciso aprender com a Internet como um modelo de criação onde são formadas comunidades em torno de objetivos comuns e onde o que importa são as suas contribuições e não a posição que você ocupa na hierarquia da sua empresa. Afinal de contas, se você quiser fazer a diferença, você tem que estar disposto a desafiar o tradicional e o raciocínio convencional.

Concluo essa sintese afirmando que é preciso perceber que a revolução porque passamos é uma revolução social. Pela primeira vez na história da humanidade, o ser-humano passa receber a importância realmente devida no processo econômico, algo que lhe foi negado durante séculos. Diante dessa realidade, é preciso desenvolver novas estratégias, conceitos e organizações que atendam a necessidades sociais – desde condições de trabalho e educação até desenvolvimento comunitário e saúde – ampliando e fortalecendo a sociedade civil. Como sempre diz meu amigo Gil Giardelli: “São precisos novos mapas para navegar nesse novo mundo”.

Não se trata de uma questão de puro romantismo. É preciso entender que lucratividade e sustentabilidade não são conceitos antagônicos, pelo contrário, entendo que empresas que conseguirem conciliar esses dois conceitos terão uma vantagem competitiva muito grande em relação a seus concorrentes.

Repito: As pessoas estão no centro do universo dos negócios. Entender essa premissa básica é o primeiro passo para estabelecer conexões, principalmente as emocionais. O papel dos líderes nas empresas é estabelecer essas conexões entre pessoas(funcionários, clientes, fornecedores, parceiros e sociedade), processos e sistemas.

Quem tiver as melhores conexões vencerá.

Um abraço.

“Keep the Faith”

twitter: @blogdomarcelao

Uma resposta to “ExpoManagement 2010: Reconstruindo Nossa Visão de Mundo”

  1. José Augusto said

    Marcelão, não sei se entendi muito bem o que se quis dizer com “as empresas devem estar comprometidas com um propósito maior e valioso, ou seja, sai o lucro e entra a causa, a missão”.

    O “sistema” permanece capitalista, onde “o valor” é o capital. Lucro está em tudo, na origem, na essência, até mesmo em suas palavras.

    O Marketing 3.0… considerar preocupações e desejos de cidadãos globais. Para quê?
    Proporcionar “significado” é a futura proposição de valor do marketing. Para quê?
    A gestão precisará acompanhar essa evolução… e se aproximar do que é ser-humano. Para quê?
    É preciso buscar facilitar a adaptabilidade nas empresas inovando na gestão. Para quê?
    É preciso ser diferenciado em relação a sua concorrência e não tentar copiá-los. Para quê?
    Afinal de contas, se você quiser fazer a diferença… Para quê?

    Você fala o tempo todo em atitudes e comportamentos empresariais visando o quê?

    Enfim, “pela primeira vez na história da humanidade, o ser-humano passa receber a importância realmente devida no processo econômico”… só que não estou certo se é para o ser-humano… talvez ele apenas esteja se tornando importante para garantir o lucro e a perpetuidade, mas não é pelo ser-humano em si. Acho que nunca vi uma ação envolvendo “grana” que fosse altruísta. Acredito que tenha solução sim, um dia, mas não pelas mãos das empresas, mas pelos governos e, em última instância, pelo amadurecimento da sociedade através de infinitas ações… seu blog, por exemplo.
    Um abraço.
    Nota: Eu não sou pessimista…

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