Blog do Marcelão

Blog para debate sobre excelência na gestão.

O Poder Corrompe. A Falta Dele Também

Posted by marcelao em julho 19, 2010


Pessoal,

em um artigo passado, eu procurei trazer para reflexão se os modelos de gestão e a postura dos administradores da empresa estão estimulando o comportamento não ético dos funcionários da empresa, principalmente a postura de tentar alcançar a excelência por decreto(clique aqui para ler). Hoje quero abordar a questão da autonomia dos funcionários no desempenho de suas tarefas diárias.

Na edição de julho de 2010, recentemente lançada, a revista Harvard Business Review Brasil apresenta um artigo da especialista em Gestão de mudanças, Rosabeth Moss Kanter, em que ela levanta a questão sobre se a falta de poder pode corromper e que isso tem muito a ver com os entraves existentes dentro das empresas por questões burocráticas e manutenção de silos de poder. Você tenta avançar no seu trabalho e emperra em frases como, por exemplo, “Os procedimentos não permitem”, “Vai levar meses para ser aprovado”, “Isso não vai dar certo”, “Aqui sempre foi assim”.

Diante desse tipo de barreira, ou você entra no jogo da troca de favores ou você é excluído do processo. É por essa razão que as relações políticas imperam muito mais nas empresas do que o atingimento dos resultados que interessam realmente a empresa. O projeto passa a ser individual e não de interesse coletivo. Leva mais quem tem maiores relações com quem está no poder atualmente do que a importância que um projeto tem para a empresa, o que leva a um fisiologismo pérpetuo que compromete a eficácia organizacional. Como as pessoas não podem enfrentar muitas dessas barreiras, elas acabam por “sabotá-la”. Acabam usando as relações para inverter e conseguir o que deseja. Quanto mais ordem, quanto mais centralização do poder, maior é a inversão.

Tal comprometimento da eficácia organizacional da empresa tende a trazer conseguências terríveis em futuro muito próximo para as empresas, uma vez que uma das grandes forças de mudança no cenário competitivo das empresas é a transferência de poder do centro para as bordas, principalmente, em consequência do aumento do poder do consumidor que hoje ainda é muito mais ciente de sua força na econonia do que em tempos anteriores.

hierarquia

No artigo da Rosabeth, destaco um parágrafo que é um retrato atual das consequências do modelo de gestão concentrador de poder e de informações no centro. Ela argumenta que “a falta de poder é particularmente evidente nas fileiras do meio. Quando corta cargos de nível médio, a empresa normalmente eleva a carga de trabalho dos que sobraram sem aumentar sua eficácia e influência – combinação que tende a provocar a rigidez da aversão ao risco. Tolhido por regras e tratado como desimportante, o pessoal revida: supercontrola seu território, cobra tributo antes de responder a solicitações. Desconta sua frustração em gente ainda mais impotente. É como uma sequência num desenho animado: o chefe critica o funcionário, que amaldiçoa a mulher, que grita com o filho, que chuta o cachorro.”

Tal discurso encontra muito eco no Brasil que, apesar da melhora, ainda é sociedade dividida entre ricos e pobres, donos do poder e dominados. Onde o vetor da nossa cultura é o movimento do reforço. Isso não é nenhuma novidade, pois durante séculos nossa sociedade se dividiu entre senhor do engenho e escravo, o que motivou uma cultura de manutenção do status quo. Somos o país catalogado como o mais hierarquizado e controlador do mundo, afinal de contas temos a maior consituição do planeta em termos de número de artigos, um código do menor complexo, com milhares de leis e, nas organizações brasileiras, principalmente nas estatais, imperam as regras e as mega-estruturas hierárquicas.

Toda empresa possui dois discursos corporativos comuns: “- Nós temos a Nossa Missão e a Nossa Visão” e “Nossos funcionários são a coisa mais importante para a empresa”. No caso da “Nossa Missão” e da “Nossa visão”, são apenas artefatos decorativos da cultura organizacional da maioria das empresas, o que existe realmente é a “NOSSA PRESSÃO”. Pressão pelos resultados, pressão pelas metas, pressão pelas vendas, é pressão para todo lado. Ocorre que o problema em si não está nessa pressão exercida pelos altos escalões das empresas, mas sim na falta de autonomia para os funcionários na ponta, aqueles que estão em contato direto com o consumidor, aquele mesmo que possui maior poder na nova economia. Nesse caso, a autonomia deve existir na mesma proporção existente da nossa pressão.

Quanto ao segundo discurso, se realmente os funcionários fosse o ativo principal das empresas, as empresas procurariam incentivar muito mais uma postura colaborativa do que competitiva na cultura organizacional. Procurariam confia mais e compatilhar o poder que hoje está concentrado no centro das empresas, deveriam procurar criar uma verdadeira democracia de informações para que seus funcionários pudessem agir com o interesse da empresa toda em mente.

Afinal de contas, cada vez mais, a geração de valor se dará na interface entre funcionários da linha de frente e os clientes da empresa. Esse pessoal precisa de informações e autonomia para poder fazer o que é certo para o cliente sem ter de pedir permissão, ainda mais em ambientes de alta volatilidade onde é necessário liberdade para agir com rapidez. As empresas precisam repensar esse modelo, pois o custo de sonegação de informações e de centralização do poder está se tornando cada vez mais inaceitável.

Um abraço.

“Keep the Faith”

Twitter: @blogdomarcelao

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